domingo, 15 de dezembro de 2013

NINHO DE BEIJA FLOR - Maysa Machado

ninho de beija flor I/ foto.by cel/ maysa machado





















                                                 ninho de beija flor II/ foto by cel maysa machado 

NINHO DE BEIJA FLOR

                                                              Maysa Machado

Quem já viu um NINHO DE BEIJA FLOR? Alguém? Quem?
Se quiser fique curioso, ou se puder não dê nenhuma importância à história que vou contar. História de verdade ou inventada? Raul e Cecília... Rápido, deduzam, antes da próxima linha ;)


Era uma vez...

Fui apresentada a uma casa delicada
Toda verde clarinho.
Parecia flor, mas não era.
Depois olho a olho descobri
Era um ninho... De beija flor.
Escorado nas folhas duras
Verde escuro que cobriam
O emaranhado das heras
De um muro vizinho.
Ninho de passarinho
No final da primavera?
Um canto tão pequenininho...
Só vai caber o comprido bico
Do príncipe dos jardins!
Na semana seguinte... Desconfio
Após o nascimento do primeiro filhote
Eh! Bum!
Ou cai o ninho ou o passarinho!
Santa Teresa, 15 de dezembro de 2013.
<3 <3 <3 <3

Bilhete para possíveis interessados:

História verdadeira ou inventada? Com saudade dos meus netinhos: Mabi, Ana, Raul e Cecília. Tudo isso, se aconteceu, foi no dia 12/12/13.
Levei um tempão, hein? Pra conhecer um ninho de beija flor.
Vovó Maysa.

domingo, 24 de novembro de 2013

HILDA HILST - DO DESEJO - DA NOITE II




POESIA SEMPRE...

"O que tu pensas gozo é tão finito

E o que pensas amor é muito mais." HILDA HILST (1930/2004)

In DO DESEJO - DA NOITE II , pag. 30. Ed. Globo, 3ª reimpressão, 2013...

II

Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível

E o que eu desejo é luz e imaterial.

Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?

(Da Noite - 1992)

Encantos e desencantos atravessam a poesia.
Abraços
Maysa

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

SÓ NA APARÊNCIA -Maysa Machado



foto sonia simões













SÓ NA APARÊNCIA

                                         Maysa Machado

Em quieta aparência
Um vulcão dorme
Dentro de mim.
Te olho. Sinto amor
Te vejo.
Vou recalcando o desejo
Ah! Brota tanta emoção
 Dispara em ritmo apaixonado
Meu coração.
É suave, avassalador.
Nítido descompasso do amor.
Tua voz traz o encanto da primeira vez
Nem sei por que não posso repetir
No gesto, a entrega pulsante.
Vence o desejo domado.
Só na aparência.
Quero carinho
Um abraço. Dois beijos.
Todo o tempo inexato
E meu nome sussurrado outra vez.
Bem sabes o que me faz feliz.
Escadas acima, abaixo.
Sem tempo determinado
Sem a pressa imperiosa da lei
 Calculada em horário e dia
A confundir secos e molhados.
Dois mundos subjetivos
Olhares inconformados.
Em mim, misturo o onírico ao real.
Minúcias antecipam tua chegada.
Perfume de lavanda no quarto
Roupa de baixo premeditada
O vinho sorvido, o desejo...
Por fim engarrafado.
A timidez não vencida.
Faltou o simples carinho
Qualquer afago.
A lei, a blitz, a pressa.
Estás atrasado
O trânsito desde o viaduto derrubado
Desencontram-se os tempos internos
 E os mundos desvairados.
Algum alarme é travado.
E a casa fica, inteiramente, vazia.
Sem teu corpo magro no sofá sentado
Sem tua voz suave e forte
Sem teu olhar triste e acalmado.
Tuas histórias partem contigo
E a casa dói, inteiramente, vazia.
Meu amado.


Santa Teresa, 6 de novembro de 2013.

Um abraço aos que passam pelo Ninho, bem sei que atravessam as Tempestades.
Querem ver mais fotos da sonia simões? Aqui: http://olhares.uol.com.br/trilhos-de-santa-teresa---rj-foto322414.html

sábado, 2 de novembro de 2013

O DIA DE FINADOS OU AS FLORES... PELA HORA DA MORTE -Maysa Machado





















O DIA DE FINADOS OU AS FLORES... PELA HORA DA MORTE.


                                                                 Maysa Machado

O dia amanhece quieto, silencioso, envolto em leve calma. Um galo canta por preguiça, já passando das 7 h da manhã. Os passarinhos trinam e num vai e vem agitado pousam entre folhas, e beirais.
O silêncio da manhã me agrada. Janela aberta pro lado do mar. Um raio morno de sol vem me aquecer o corpo.
 É a vida que sopra, acorda, aquece, encanta e um dia adormece na eternidade dos cemitérios, das casas, ou se despede com pressa nas ruas, nos hospitais.
Lembro de todos que amei e que tiveram amor por mim. Lembro dos que admirei e segui. Lembro dos desencontros, da pressa, e a saudade passa de mãos entrelaçadas com a brisa dessa manhã quieta e fresca, como um sorriso.
Não costumo ir ao cemitério homenagear os mortos queridos, devia mudar esse hábito... E tantos outros precisam mudar.
Tenho motivos de sobra para ir visitá-los. Saudades. Necessidade do silêncio, que nem sempre chega pela manhã. Dizem que o silêncio é uma forma de oração. Acredito.
Reúno minhas lembranças, nelas imagens primeiras ou únicas de meus queridos, nossas semelhanças e divergências.  Reúno-me e respiro o ar da manhã, usufruo o silêncio como um prêmio. Olho para as flores silvestres do pequeno jardim.
Meus sentimentos, meus sentimentos aceitam a ausência, a perda dos que já partiram. Preparo o coração para seguir o caminho, com a mesma pergunta que nunca sabemos responder.
Mais um Dia de Finados feito para reverenciar e agradecer, em silêncio, a vida. Que os entes queridos descansem em paz na eternidade de nossos afetos.
O bem-te-vi grita, pra quem quiser ouvir, o seu recado.
  

Santa Teresa, 2 de novembro de 2013

Fica a sincera homenagem ao queridos ausentes, mas contínuos inspiradores de nossos dias.
Abraço.
Maysa

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

AMO VOCÊ - Maysa Machado

 Rio clicado da Vista Chinesa/ Ana Rebes Guimarães/ 
 luz da manhã/outubro de 2013











AMO VOCÊ

                                   Maysa Machado




Palavras são desnecessárias

para o intenso sofrer.

Os fortes cultivam em silêncio

suas dores, sem nada dizer.

Choro por tudo 

Um quase nada.

Tanto faz.


Ninguém vai querer saber.


Amo sua presença

Seu jeito de olhar.

O amor traz sentido

Enganos, tristeza e dor.

O amor ameniza

A angústia de existir.

Colore sonhos, exala perfumes.

O amor consola.

Aplaca medos e trevas

O amor... É entrega.

Sinto o amor 

Humanizo-me.

Nessa calma aparente

Navegam tempestades

Você é a tempestuosa calma.

O instante se instala, de passagem,

No espaço da casa.

Momento e ação. Você

Suaviza a têmpera indomável

Que era minha.

Imprevisível, incontrolável

Faz-se ausência quando quer.

Tanto irrita, tanto faz.

Falta mais que um pedaço.

O amor refaz nossa visão do mundo

O sentir e o saber de si.

Resisto.

Pra quê?

A cada dia mais é preciso

... Aprender. Sonhar. 

Amar em silêncio.

Como eu amo você.


Santa Teresa, 24 de outubro de 2013.


Palavras insistem em traduzir sentimentos e pensamentos. O silêncio faz melhor.
Um abraço aos que passam.
Maysa

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

SÓ VINICIUS - Maysa Machado






SÓ VINICIUS
                                                                                                                                                                                                                                                   Maysa Machado

Vinicius partiu cedo. No entanto, as marcas de sua passagem continuam enriquecendo todas as gerações. Pergunte aos jovens que não o conheceram, nem o assistiram em seus shows musicais. Sobre o poeta, letrista incomparável e carioca, sedutor e bem humorado, pairam muitas histórias.
 A obra literária, poética e musical, e mesmo os fatos da vida pessoal desfilaram ante o olhar apaixonado de todos os brasileiros.
 Vinicius espalhou e sorveu AMOR. 
 Encantamento há com as tristezas e alegrias amorosas. Melhor vivê-las que não tê-las, quem pode aprendeu com Poema Enjoadinho.
Toda a obra do “poetinha”  mostra como só se transpõe, vida a fora, vivendo, intensamente, colorindo ou apagando as dores do amor.
 Com irreverência e permanente mordacidade, Vinicius, tratou as convenções de sua época.
 Vinicius nunca passará. Conquistou o amor de seu povo. 



POEMA ENJOADINHO


Vinicius de Moraes





Filhos... Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

Abraço aos que amam poesia, e lembram do Vinicius com carinho. Um carioca que muito enriqueceu o nosso jeito de ser.
Maysa.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

PRIMAVERA PASSEANDO AQUI EM CASA - Maysa Machado

fotos maysa machado/ cel/outubro 2013










PRIMAVERA PASSEANDO AQUI EM CASA


                                                                            Maysa Machado

Flocos brancos de nuvens passeiam no céu. Flores, lavandas, pitangas, pimentas no jardim... Passeiam, também.
Até eu passeio. Fui rever a Cinelândia, no dia seguinte à manifestação em prol da Educação, e trouxe frases, passagens da luta por cidadania, que resvala na angústia de ser brasileiro.
A Primavera de aparência suave, rotineira... Ameniza o calor forte, traz chuvas com seus ventos caprichosos, imprevisíveis.
Alergias aos sensíveis. Tédio pra ninguém.
Passa depressa a vida, dizem. Intensa, declaro eu. Nem dá tempo pra viver tanta coisa. Nem pra acalmar o espírito com a perda que, a esta altura, não é pouca.
Descubro um travo, feito cica em fruta, é a frustração de sentir que o mundo empobrece quando parte alguém especial... Que a gente se emocionou ao perceber, e chamar de "gente".
Felizmente, lixo humano não traz saudade.
Nostálgica, pelos tempos atuais, em que: A cultura - na aparência - se acomoda, a cidadania resta incompleta, os sonhos despertam à míngua.
O pragmatismo vence todas. A ilusão está caducando, e o surreal é que, ainda, nos dá alento inesperado.
Mais um brinde à Primavera! Tão discreta, passeia pela casa florindo, verdejando, trazendo pássaros e pólen, multiplicando... Esperanças.

Um brinde à vida! Tão intensa pode se aconchegar em nosso dia-a-dia, sem pedir licença.

Santa Teresa, 9 de outubro de 2013.

Grande abraço de Primavera.
Maysa

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

ABIGAIL, DAGMAR e JULIETA – Presente, passado e futuro- Maysa Machado











cartaz dos professores em luta por salarios e condições de trabalho dignas.

Desenho de alunos da Escola Francisco Alves , em Botafogo, Rio.


ABIGAIL, DAGMAR e JULIETA – Presente, passado e futuro.

Por um princípio da Escola Pública: investimento na formação do indivíduo.

                                                                                          Maysa Machado

Três mulheres importantes, para todo o sempre, em minha vida. Não pude dizer-lhes isso. O tempo seguiu, e de criança à mulher adulta, nunca mais as vi.
Digo, agora, em público, comovida por boas lembranças vividas na Escola Primária Francisco Alves, em Botafogo, na Rua da Passagem. As três minhas professoras primárias.
 Os dolorosos e absurdos fatos, suscitados pela violência de estado, contra a greve, em curso, dos professores municipais do Rio, deviam encorajar, a todos, a saírem em defesa dos mestres, desrespeitados pelos governantes e policiais, nas ruas do Rio, na Casa do Povo - Câmara dos Vereadores e nas salas de aula.
Conto aqui, com direito à subjetividade que me representa sobre as três mulheres. Elas me apresentaram o mundo. Um lugar maior, e distante do lar, do afeto materno e paterno, e precisava se tornar próximo; que as pernas pudessem alcançar sozinhas, onde a barra do vestido da mãe não podia levar.
DONA ABIGAIL
Professora do Jardim de Infância, na referida Escola Pública, me ensinou a ler. Descrevo-a: Alta, magra, sem um pingo de pintura, era mulher feita, cabelos castanhos cacheados, beirando o ombro, óculos, e movimentos precisos, porém suaves. Um grisalho nos cabelos.
 Aprendi deslumbrada, em ambiente calmo e lúdico, os sons e significados das letras. Ouvindo histórias, folheando os primeiros livros, descobrindo as ilustrações, e estas mostrando a riqueza dos detalhes, nas figuras.
 Não era proibido sonhar, imaginar, desejar, perceber. Talvez, o proibido ali, fosse faltar aula.
 Aprendi a construir palavras, e com elas a pensar. As palavras me transformam e dão significado à vida.
A sala de aula, lembro bem, era ampla, porém aconchegante, arejada, luminosa. Ficava ao fim do pátio do prédio antigo principal, onde os alunos das turmas do primário estudavam.
Anos passados, a ganância institucional, aliada ao poder político, demoliu o lindo prédio de valor arquitetônico, no bairro de Botafogo, e colocou, na rua lateral, duas caixas horrendas de concreto.
A valorização do metro quadrado do terreno, na rua principal, onde a escola ficava, foi determinante para a demolição. O lugar da memória se manteve no imaginário daquelas crianças. Essa construção é permanente.
O atual governador do RJ quis fazer o mesmo, sem sucesso, pela intensa movimentação popular, com escola no complexo do Maracanã.
Existe algum governante - aqui no Estado do Rio e no Município do Rio- com o propósito de respeitar e contribuir para essa formação básica?
Quais são as condições e instalações físicas atuais nas escolas publicas? O que as crianças, de hoje, e seus mestres, recebem dos governantes para, desenvolverem juntos, essa importante etapa na vida de qualquer pessoa.

A luta de todos nós, parece-me que é defender, proteger crianças e mestres contra as agressões à formação do indivíduo.
E quais são as garantias democráticas que podem proteger os indivíduos de toda forma de agressão aos seus direitos de pessoa?
 A Constituição não está sendo respeitada. Presente preocupante e Futuro imprevisível.
A LUTA CONTINUA.
Santa Teresa. 2 de outubro de 2013.

Abraço aos que por aqui passam.
Maysa

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

27 DE SETEMBRO - DIA DE COSME E DAMIÃO – E A TRADIÇÃO DE OFERECER BALAS ÀS CRIANÇAS. Maysa Machado










27 DE SETEMBRO - DIA DE COSME E DAMIÃO –
E A TRADIÇÃO DE OFERECER BALAS ÀS CRIANÇAS.

                                                                               Maysa Machado


Cuidado ao volante, motoristas, hoje é dia de Cosme e Damião!
Muita criança correndo pelas ruas, atrás de balas, doces. Então, atenção redobrada.
Nos subúrbios cariocas, e por outras zonas da cidade, surge alvissareira a agitação do bando colorido de crianças. Em sua grande maioria pobre, descalça, ávida por presentes.
O tempo da infância exige pressa. Cuidado motorista.
A bola corre para além dos pés ligeiros e ao longe desafia a retomada. O gol é, e sempre será, a meta.
No dia de Cosme e Damião, de novo, a criança corre atrás.
Das recordações longínquas, o grito maior tem volume, comando e coreografia:
— ‘Tão dando bala ali!
Dando bala, doces, e junto a ilusão, a imaginação escondida dentro do saco de papel, com a estampa colorida dos santos gêmeos.
O prazer de saborear as guloseimas, o prazer, simplesmente.
Ajudai-nos a criar nossas crianças com fantasia e alegria. Protegei nossa infância tão subnutrida, esquecida, desamparada.
Balas, doces, confeitos, ao invés, de balas perdidas, nas subidas e quebradas, da cidade Maravilhosa.
 Protegei oh! Cosme e Damião a criançada.

Santa Teresa, 27 de setembro de 2013.

Grande abraço aos devotos dos Santos Cosme e Damião.
Maysa

domingo, 22 de setembro de 2013

SE A PRIMAVERA FOSSE GENTE - Maysa Machado

orquídea de quintal/maysamachado/by cel/setembro de 2013




















SE A PRIMAVERA FOSSE GENTE


                                              Maysa Machado



Se a primavera fosse gente...
Seria mulher. Delicada, bela
Discreta, muito inteligente.
Traria consigo promessas e sonhos
Todos possíveis. Alguns, tão bons
Podiam ser sonhados, novamente.
Se a primavera fosse gente...
Seria forte. E permanente.
Atravessaria o deserto de afetos,
Os medos que povoam a vida
E assustam o coração da gente.
Se a primavera fosse gente...
Alcançaria com simplicidade e precisão do gesto
O desconhecido futuro e o traria para o presente.
Se a primavera fosse gente...
Guerras, dor e morte
Não sufocavam as noites insones.
Surpresas boas nasceriam juntas
Com o amanhecer dos dias.
Se a primavera fosse gente... Como a gente
As flores perfumadas, coloridas, diferentes
Após corte seriam exibidas em translúcidos cristais
Da beleza suntuosa ao destino efêmero
Dos buquês de noivas.
Ao choro contido das coroas fúnebres
Pranteando a partida.
A primavera, por absoluta necessidade, é estação.
Chega com data marcada, previsível.
Pródiga. É uma no hemisfério sul e outra no norte.
Aos afortunados é permitido viverem
Duas primaveras por ano.


Santa Teresa, 22 de setembro de 2013.

Meu abraço de Primavera.
Maysa

terça-feira, 10 de setembro de 2013

É TUDO PASSARINHO OU UM TRINADO, ATÉ AQUI, NUNCA OUVIDO - Maysa Machado

















É TUDO PASSARINHO OU UM TRINADO, ATÉ AQUI, NUNCA OUVIDO.

                                                                             Maysa Machado


Tempos de inquietude, incessantes ruídos, silêncio escasso. Quase sempre surgem nas manhãs, e nos despertam aos solavancos. Ah! Mas haverá alguma em que o canto de um pássaro te alcança primeiro.
Aconteceu, hoje, acordei com um trinado desconhecido, aí a vontade incrível de abrir a porta do quarto, que dá pra varanda do mundo, e ver o dono do som. Contive a inquietude, que dormira de véspera comigo, fiquei toda ouvidos, agradeci contrita o dom de, apenas, ouvir.
Outros trinados acordaram minhas manhãs e mais outros, com otimismo, aguardo. E esse canto, que nunca ouvira, trouxe, com ele, por inteiro, o frescor da vida.
 O novo desperta, em nós, a seiva que guardamos, por vezes, em lugares impróprios. Mal resolvidos, grávidos da rotina engendrada em mágoas, tristezas. Quase uma ressaca de viver e não conseguir aceitar a oferenda recebida.
Amo o silêncio. Amo os dons e sons da música, e suas pausas que falam; caminhos que constroem nova unidade, novo vir a ser. Quase toda subjetividade é amalgamada em sonhos, esperas, novos trinados para serem percebidos.


Santa Teresa, 10 de setembro de 2013.

Um abraço aos que por aqui chegam.
Maysa

foto: sanhaço comendo cereja  in http://marciliodiasdistrito.blogspot.com.br/2013_01_01_archive.html

domingo, 1 de setembro de 2013

O QUE BEBI DO AMOR...- Maysa Machado














Do amor... bebe-se em fonte limpa, bebe-se em torrente ou chuva fina. Do amor bebe-se o nectar do amado. A música aplaca perdas, te faz amar o amor de novo. Aqui, o que bebi... em António Zambujo.

O amor da avó para um menino, enquanto os pais trabalham. Um pouco do amor à mesa, na sala vazia, para um casal desconhecido.

Um primeiro amor roubado... "Samick se me estás a ouvir...Volta, tenho muitas saudades tuas!"
Tudo em "Primeira Pessoa"
http://www.youtube.com/watch?v=eCCwZ5iMIvg

Agora, o que senti ouvindo Quando Tu Passas por Mim, essa música linda do Vinícius e Antonio Maria, ficou mais definitivo, nítido ouvindo-a por António.

http://youtu.be/aEh4u8B4oWQ

Abraços
Maysa

sábado, 31 de agosto de 2013

DESPEDIDA - Maysa Machado

La Vierge, l'Enfant Jésus et sainte Anne/ by Leonardo da Vinci.



















À cada dia tem a vida sua agenda. A morte imita-a com perfeição.


DESPEDIDA

                                                      Maysa Machado

Sai morte. Desguia.
Já levastes quem queria.
Vai carpir noutro terreiro
Tua ronda de insucesso e dor.
Avança. Sem perdão
Avisa-nos o tempo.
Ah! Deus quanta arrogância
Em dado momento
A gente acreditar
Que tem a vida
Algum pertencimento
E dos seus se adonar.
Não há troca possível.
Sai morte. Desguia
Em teu glorioso dia.
Um ente querido parte
Empobrecida segue a rotina
 Através do espanto
Do sentimento doído.
Acostumar não há.
Quem ama a vida
Morrer não devia.
Inda mais em claro
E lindo dia.
De Azul inteiro celeste
 No inverno tropical
 ... Do Rio.
Santa Teresa, 31 de agosto de 2013.

Para aceitar a morte é preciso entender a vida. E estar pronto para a despedida.
Abraço
Maysa


domingo, 25 de agosto de 2013

SÁBADO À NOITE EM SANTA TERESA - Maysa Machado

foto maysa machado by cel./ Santa Teresa/agosto 2013



















SÁBADO À NOITE EM SANTA TERESA

                                                            
                                                                  Maysa Machado


Se aos sábados os embalos tardam, e colhem as madrugadas, nem sempre o som escolhido, ou o volume em que é ouvido, merece aplausos.
Dá pra concluir pelos altos decibéis, necessários à quase toda manifestação de euforia contemporânea, como as pessoas estão ficando surdas.
Estamos vivendo numa sociedade de surdos? Distraídos? Egoístas? Desmedidos?
A dúvida me inquieta. O que hoje é considerado de bom tom? Desculpem-me o trocadilho. O que está acontecendo com a espécie humana nas sociedades moldadas pelo verbo ter?
Arrisco: Perdeu-se o espírito festivo. Festa é festa, só pode alegrar, ou melhor, juntar alegrias. Pessoas em clima de comemoração, não deviam incomodar. Será que desaprendemos, por completo, o caminho do bem estar?
 Precisamos do exagero para sermos vistos. Carros, aparelhagem de som, muitos homens de preto fazendo segurança, buzinas, impaciência.
Ontem, passando um pouco das 23 horas, fiquei presa num engarrafamento na subida de Santa Teresa. Gente engarrafar na ladeira é mais desconfortável que em túnel. Conheço as duas modalidades.
Depois, descalça em casa, ansiosa para jogar o corpo no sofá da sala, ver um filmezinho na TV... O cheiro e a fumaça de churrasco brega das redondezas invade, junto com a voz de um comunicador festeiro distorcida por um alto falante, o precioso silêncio a que pensava ter direito.
Fecho rápido as janelas e portas naquela direção. Atravesso confiante até a sala. Assumo meu lugar no sofá, a programação da TV paga não oferece alternativa e, pelo flanco da área social da casa entra novo som, sem pedido de licença... Me impaciento , lembro do engarrafamento, das buzinas e... Admito que o  último som me é mais familiar, embora não escolhido.
Sucumbo. Acordo as três da madruga, entortada por dores e câimbras, com a coluna em péssimo estado.
 Fora embalada pelo rock pesado e autêntico dos anos 50, da outra festa, com altos decibéis e tudo, fazer o quê?
Agradeço em silêncio, subo para o quarto, e já no segundo andar, agradeço de novo. Clarice me espera com crônicas soberbas, em total silêncio aparente. Ajeito os óculos de leitura. Minha alma grita, chora, ri e aprende a ser feliz de qualquer maneira nos embalos de um sábado à noite.

Santa Teresa, 25 de agosto de 2013.

Com um abraço de Domingo.
Maysa

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

LUAR DE AGOSTO - Maysa Machado

foto de custódio coimbra/recortes do rio/ galeria tempo /2010














LUAR DE AGOSTO

                                                                       Maysa Machado


O brilho da lua invade minha janela, entra no quarto que não estava iluminado pela luz elétrica.
O momento mágico se instala no silêncio da noite, sorrio em direção à luz fria, suave, porém carregada de esplendor.
A lua está quase cheia, falta um “naquinho” de nada, para que a plenitude se complete. Amanhã brilhará em toda sua completude.
Raridade em nosso fragmentado mundo, mas uma demonstração inequívoca, que beira o espanto quando acontece.
Desde o nascimento convivemos com as noites de luar, e por mais que saibamos como são, não banalizamos a convivência. Parecem-nos sempre únicas.
Luar prateando o mar, clareando a mata, fazendo quadrados emoldurados pelas janelas nos chãos dos quartos, apontando caminhos para o desconhecido.
Inspirando poetas e enamorados. Luar que tece sonhos mais leves e arrefece brigas passageiras.
Essa pitada de magia não se repete, e nos visita a cada mês, e se anuncia.
Mudamos o humor, renovamos a esperança. Sonhamos de olhos abertos, desejamos alcançar na terra a magia presa aos céus.
Corro à janela, e me torno a mulher mais feliz do mundo naquele instante. É lua cheia.
Se estivesse próxima à praia dançaria feliz por entre as pequenas ondas que beijam a areia  tecendo, em relevo, um rendado de prata fina.


Santa Teresa, 21 de agosto de 2013.

Um abraço de plenilunio pra todos.
Maysa

Crédito: A bela imagem do Custódio Coimbra foi a foto de divulgação de sua exposição, Recortes do Rio, em 2010, na Galeria Tempo,Rio.
http://www.cultura.rj.gov.br/materias/recortes-do-rio-pelas-lentes-de-custodio-coimbra

terça-feira, 13 de agosto de 2013

AGOSTO... - Maysa Machado




















Um poema é assim chega devagar ou de súbito. Depende do dia, do tempo, da vida. Do sentimento.


Agosto...

                        
                              Maysa Machado



Inverno de folhas mortas
Brumas e lembranças.
Agosto... Dos Nós distantes
Do eu desperto.
Rosto. Mãos.
Por onde jorra a água fria
Passado o afeto
Um gélido vento
Algum perigo no ar?
Desde o claro da manhã.
Agosto de histórias
 E... História.
Um mês, um ano.
Qual o tempo
Do esquecimento?


Santa Teresa, 13 de agosto de 2013.


Um abraço para quem passa.
Maysa

quarta-feira, 24 de julho de 2013

DOMINGUINHOS - Maysa Machado




DOMINGUINHOS

"... E vamos ajeitando”.
                                                                       Maysa Machado

 Assim, com o pé no chão, na estrada com se diz, vindo no "pau de arara", conheceu e foi conhecido no país inteiro. O Brasil assistiu e aplaudiu a trajetória, conviveu com sua modéstia, e as artes que a sanfona lhe deu.
 Foi descoberto, aos 16 anos, por Luiz Gonzaga que "lhe ensinava, sem ensinar".
O menino Dominguinhos, não era bobo, aprendeu e acrescentando à sanfona seguiu encantador, cantador, compositor. Compartilhou com todos: Música e Alegria. Voz espalhando, por onde andou a fibra nordestina em seu jeito manso, recolhendo inspiração na bem sucedida história de vida viajante sertaneja.
Através da arte de Dominguinhos sertão e serrado, caatinga e roçado permanecem na lembrança e no dia a dia da multidão das cidades. Aprendeu com mestre, mestre se transformou.
Lá pelos anos sessenta, era comum ver-se o peão de obra, ao fim do dia, colado a seu radinho de pilha, assim podia acompanhar o som do zabumba, do triangulo amenizando a vida de rês desgarrada das entranhas, das origens. Era o operário, o anônimo nordestino construindo as cidades. As megalópoles continuam recebendo os migrantes. O cenário urbano mudou, e a luta nordestina para sobreviver continua.
Haja muito forró de pé de serra. Festa e ritmo de um Brasil profundo que segue arrastando o pé na cadência, no encontro com seu coração e identidade.
Parte mais um brasileiro amado de verdade por seu povo. Um artista. Sanfona e voz se calam, mas repercutirão em nossa cultura para sempre.
E quando se ouvir um xote, maracatu, xaxado ou baião Luiz Gonzaga e Dominguinhos, dois mestres, estarão formando outros, muitos outros, fazedores de alegria.
Um novo músico em sua vida de viajante, longe de casa e “andando por esse país pra ver se um dia descansa feliz”.

                                                 xxx


O vídeo selecionado foi sua última apresentação em público. You Tube. Vídeo ao vivo, show no dia 13 de dezembro de 2012, em NOVA JERUSALEM.  Homenagem ao Rei do Forró, Luiz Gonzaga, na data de seu aniversário, transformada em Dia do Forró.


Grande abraço
Maysa

terça-feira, 23 de julho de 2013

FÉRIAS DE JULHO - Dúvidas traduzidas em perguntas e um só desejo - PAZ - Maysa Machado



FÉRIAS DE JULHO

Dúvidas traduzidas em perguntas e um só desejo: PAZ

                                                                                         Maysa Machado


O sétimo mês vai se despedindo... Daqui, percebo um tempo de pouca celebração e alegria, isto porque, sabemos bem, algo mudou em solo carioca.
Manifestações populares justas, porém reprimidas com violência pelo Estado no qual nasci e vivo. Nossa cidade e seu povo acolhedor recebem visitantes alegres, surpresas devolvem. Podem crer, atualmente, nem sempre as melhores.
Queremos traduzir tudo em poesia. O Rio é lindo e generoso, igual a seu povo que, por mais sofrido, esbanja humor, alegria e simpatia. As praias, o futebol, o samba... Não dá pra viver de clichê.
O que sentirá um jovem peregrino encalhado numa fila quilométrica na Praça do Largo do Machado, para ver de perto a estátua do Cristo?
Se o meio de transporte aprazível e turístico funciona com preços caros e locais de vendas alternados... O que comentar dos meios regulares e de massa?
Os turistas internos, vindos para as férias de julho, pensarão o quê, ao serem obrigados a correr da polícia, que não trata bem seus habitantes, nem recebe com polidez seus visitantes?
E a leva dos turistas internacionais... Agendando a favela, em suas incursões para conhecer a cidade?

Somos ou não somos uma atração, predominantemente, turística? Temos um nome a zelar no cenário mundial.
A pergunta que inquieta: O que sentimos nós os cariocas com o inacreditável tumulto provocado pelo uso da violência de estado, e a desfaçatez de foco, dos governantes contrariados com as críticas e manifestações populares?

Nosso ir e vir está sendo desrespeitado, pelos atos violentos dos contingentes policiais - pagos pela população – em ações coordenadas pelas autoridades constituídas.
Férias de julho? Quem ficou por aqui sabe que não foram as férias a que tínhamos direito. Quem mora no Rio está intranquilo a cada esquina.
É tempo de reflexão, não provocada pela visita papal, mas, sobretudo, pelo destino das próximas urnas. O senhor governador não poderá se candidatar à reeleição? Será isso o que tanto o irrita? Onde estão os prováveis candidatos, quer estejam na situação, ou na oposição? O que fazem que não acorrem em defesa do Rio e de sua população? Serão os próximos governantes, indicados num processo democrático de fato e de direito. Por que o diálogo claro é evitado?
Por que os direitos humanos são violados? Estamos ou não aperfeiçoando juntos a democracia?
Que me desculpem perguntas tão ingênuas, porém necessárias.

Sou cidadã e eleitora. Nunca votei, nem votarei, em políticos vândalos que desrespeitam suas investiduras democráticas auferidas nas urnas.

Santa Teresa, 23 de julho de 2013.
Um abraço
Maysa.


PS:Ver aqui sobre a estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade:
http://www.wikirio.com.br/Est%C3%A1tua_de_Carlos_Drummond_de_Andrade

domingo, 14 de julho de 2013

INSTANTE- Maysa Machado


















INSTANTE



                                                                                      Maysa Machado



Não perguntem a mim mais do que pude observar e sentir. O fato é que nesse começo de tarde do inverno carioca, nem frio nem quente, luminosidade aconchegante, solzinho discreto e preguiçoso... Eis que num instante, apenas num breve instante, percebi no ar sons que a natureza engendra para nos presentear, vida que gera êxtases... O beijo de dois beija-flores.
O trinado acoplado. Perguntas e respostas trocadas além dos finos bicos engatados, e na mesma velocidade do encontro, logo após, a distância imposta aos apaixonados. Razão imprescindível para continuar... A voar.
Ah! Não é à toa, o testemunho de tal idílio urbano, amor alado, breve como a vida, prenhe de significados.
Domingo é dia de descanso. Descanso da lida do operário mal pago, que mora longe e quando chega ao árduo trabalho, nas manhãs, faz um alvoroço que tento compreender, porém, insuportável.
Sou há meses arrancada do sono por tapas supersônicos! Como berram! Prá que? Qual o sentido de gritar e não dizer as palavras com precisão, como o velho Graça nos ensinou?
Os pássaros daqui, mais sabidos e livres do que eu, fogem, vão para outros lugares e só retornam ao fim das tardes, assim que os barulhentos operários e suas máquinas ensurdecedoras emudecem. Tenho observado. Mudamos. Acuados e expulsos de nosso antigo e modesto paraíso. O local é alvo da cobiça desmedida para ganhos rápidos, altos lucros, quanto menores os investimentos.
Há meses a obra irregular corre célere, desrespeitando os mínimos direitos – das gentes e animais-, gerando desequilíbrio ambiental.
 Pássaros mais novos caindo dos ninhos; árvores com folhas amarelecendo cobertas de grossa camada de poeira; saguis espertos, porém, indefesos e desnorteados, saindo das quedas com as pernas quebradas. Enquanto isso, também, nossa saúde fugia, os tombos surgiam, os diagnósticos assustavam.
Herdei de toda essa convulsão urbana, invadindo a travessa antiga do bairro, alguns sintomas desconfortáveis. Aliás, ficou muito desconfortável viver ao lado de uma obra, com as características negativas que essa tem.
E, por ser uma sobrevivente desse caos, provisoriamente, paralisado exultei ao receber o singelo, e hoje, raro presente da vida saudável que rolava por aqui.
Dois beija-flores a se beijar!
Um amor a dois! A perfeição do voo solo garantida. A liberdade de voar reconquistada.
Imagino sabedoria e delicadeza juntas. Novamente, no pequeno pedaço do meu escolhido ninho chega a esperança, trazendo o domingo acolhedor e suave pra se viver!

Santa Teresa, 14 de julho de 2013.

Abraço a todos
Maysa

sábado, 13 de julho de 2013

A PARÁBOLA DE GRACILIANO - Maysa Machado










A PARÁBOLA DE GRACILIANO

                                                                             Maysa Machado


 “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."
                                                     
 Acordei com o texto conhecido de Graciliano, e, ironicamente, mal sabido por quase todos os que usam a palavra, esse instrumento indispensável à comunicação, porém com potencial letal se mal empregado.
Hoje, sinto uma espécie de tristeza ao constatar que parte de nossos saberes, e dizeres vão parar no lixo cósmico contemporâneo.
 Antes, havia a quase certeza que as pessoas queriam demonstrar o que sabiam, tentavam comunicar seus valores e sonhos... Pensavam em transformação para melhor, consideravam no processo o Outro.
Hoje, tal como está, descubro que uma grande parte quer ter, aparecer, tirar proveito. Exorbitar os parcos minutos de destaque, só e só.
Viver é labuta, dá trabalho! Alguém tem dúvidas? No entanto, vale, pelo menos para mim, se convidamos a Vida para embrenhar-se em novos significados ou revalorizamos os antigos. Uns substantivos, outros atraentes, porém quase todos difíceis de serem mantidos.
As árduas e precisas tarefas para o ato de escrever na concepção de Graciliano Ramos, em analogia encontrada através da lida do dia a dia das lavadeiras alagoanas. Lembrei-me do texto, pois vivo insatisfeita, descontente com as práticas e concepções dos governantes, com os representantes escolhidos pelo povo brasileiro... E indago:
 Será que continuariam adormecidos, distanciados de suas promessas, se lessem e praticassem no cotidiano político o que mestre Graça nos convida, para exercer na escrita?
Será que cada um dos detentores do voto de confiança de uma população se auto exigem coerência e dignidade, entre promessas e conquistas?
Ou será, ainda, para eles que atingir a transparência, precisão de objetivos é um estágio impossível, desnecessário e nauseante?
A fala embusteira de grande parte dos eleitos é um atestado preocupante.
Transcrevo o texto de Graciliano, que foi um homem público honesto e digno. Prefeito de Palmeira dos Índios, município do Estado de Alagoas.Lutou ao lado do povo e nunca traiu sua escrita e sua fala.

... Sobre a arte de escrever - GRACILIANO RAMOS

“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.
Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.
Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."
Um carinhoso abraço
Maysa

Convido para uma visita ao site do autor. http://graciliano.com.br/site/
Destaque para a matéria .

http://graciliano.com.br/site/2013/07/graciliano-ramos-o-politico-ordem-na-literatura-e-na-administracao/

terça-feira, 9 de julho de 2013

ALTOS E BAIXOS - Maysa Machado


foto Raul Silvestre/macaé













ALTOS E BAIXOS  


                            Maysa Machado



ALTO INVERNO
ALTO MAR
ALTO O SONHO
DE NAVEGAR.

MUROS ALTOS 

SUFOCANTES
QUATRO PAREDES
ESTRESSANTES

VERDES MARES

NAVEGANTES.
MUNDO INTEIRO

BARCO QUIETO
MARÉ BAIXA
AREIA. AREIA

PRAIA DESERTA
DESERTA DE GENTE
ALTO O SONHO
NO MAR ALTO.

Com abraço especial para o Raul Silvestre que trouxe inspiração com a bela foto.
Abraço a todos que passam  por aqui.
Maysa

sexta-feira, 5 de julho de 2013

O NÚMERO QUATRO - João Cabral de Melo Neto

  
Poema de Nelson Cavaquinho/ in Museu da Lingua Portuguesa


















Ah! volta e meia a poesia nos indica caminhos, ou nos mostra o pulsar da vida em gestos imprecisos, nos desvãos das certezas que trazemos no peito, por puro medo das novas e improváveis emoções.
Lendo O Número Quatro, de João Cabral de Melo Neto, assoma a vontade de ajoelhar e rezar baixinho  "... a roda, criatura do tempo, é uma coisa em quatro, desgastada". Vontade de nunca, nunca mais rezingar com a vida; aceitar a troca entre o tempo em seu percurso de ir e vir. Fazer permutas com as quinas, arestas, arredondar incomunicabilidades. Maysa Machado

O NÚMERO QUATRO 


O número quatro feito coisa
ou a coisa pelo quatro quadrada,
seja espaço, quadrúpede, mesa,
está racional em suas patas;
está plantada, à margem e acima
de tudo o que tentar abalá-la,
imóvel ao vento, terremotos,
no mar maré ou no mar ressaca.
Só o tempo que ama o ímpar instável
pode contra essa coisa ao passá-la:
mas a roda, criatura do tempo,
é uma coisa em quatro, desgastada


João Cabral de Melo Neto

Deixo meu abraço aos que passarem por aqui.
Maysa

terça-feira, 25 de junho de 2013

OS TEMPOS SÃO - Maysa Machado

      foto maysa machado/ setembro 2012. Instituto Moreira Salles


OS TEMPOS SÃO...

                                     Maysa Machado


Os tempos são.
Felizes ou não. Os tempos são.
Prazerosos e forasteiros.
Generosos ou ceifadeiros.
Não são nossos. Nada temos.
Somos sempre passageiros.



Santa Teresa, 25 de junho de 2013.

Com paixão, compaixão pelo fato de viver...
Maysa


terça-feira, 11 de junho de 2013

SANTA TERESA DE NOVO - Maysa Machado

Jardim do Museu da Chácara do Ceu/Santa Teresa













SANTA TERESA DE NOVO

                                                                                                                     Maysa Machado


Deixe que a imaginação o leve para lugares imprevisíveis. O bairro de Santa, no imaginário coletivo é bucólico, suave, ermo, habitado por pássaros, flores, ladeiras e ruídos especiais. O bondinho, tema recorrente nas lembranças, foi um fugaz companheiro e muso. Poetas, pintores, compositores e viajantes comuns davam-lhe atenção. E as autoridades o que estão decidindo?
Não é mais assim que o bairro está amanhecendo ou se deitando. Os pássaros continuam aparecendo, escolhem os momentos quietos das tardes preguiçosas ou o despertar muito cedo das manhãs. Depois, se ficam, perdem-se os trinados na inacreditável zoeira urbana.
Novos empreendimentos, novos usos. Apoiamos e desejamos sucesso aos que chegam pra somar e valorizar. Santa é um bairro especial.
É preciso que a Prefeitura aja, respeite, incentive. Ao invés, a gestão municipal não lembra, não aparece, não fiscaliza e não multa!
Como ficam os transportes? E os serviços comerciais: padaria, farmácia, supermercado, açougue? A segurança? A maioria dos moradores passa pelo tormento da falta de direitos, inclusive "o de ir e vir".
Carros demais nas calçadas, outros estacionados em áreas imprescindíveis para manobras. De nada servem as placas proibindo o estacionamento, falta fiscalização municipal, e, os moradores "sem noção" ou visitantes, fazem desse uso irregular o seu comportamento diário. Impedem a circulação, dificultam que pessoas cheguem e saiam de suas casas.
Novos destinos e usos seguem... , igualmente ignorados por seus novos donos são os direitos de vizinhança, nas áreas de moradia.
Se a Prefeitura cumprisse seu papel na ordenação urbana, nosso dia-a-dia não ficaria tão invadido.
Os "SEM NOÇÃO" se transformariam em CIDADÃOS.
É só o que quer quem vive e ama Santa Teresa!
Por que, em nosso bairro, as obras da construção civil, algumas de grande porte, continuam sem placas da Prefeitura regularizando-as? A despeito das reclamações feitas ao nº 1746.
Sem regulamentação os moradores, vizinhos ficam entregues à própria sorte.
O que alegar ao morador das casas próximas que precisam manter fechadas janelas e portas? A escolha é simples e direta: Se não entra toda a poeira, permanece a umidade. E mesmo assim, luz acesa de dia, ser agredido com o excesso de poeira que invade móveis, eletrodomésticos, utensílios, roupas dentro dos armários... Aparelhos respiratórios, pele, a alma.
Os excessos causam danos à saúde e à qualidade de vida, traduzidos nos distúrbios de sono, quedas, irritabilidade.
Passem pela Travessa Manoel Lebrão, constatem os buracos no secular piso de pé- de- moleque; a poeira excessiva; o barulho de betoneiras, britadeiras e maquitas vindos da obra, sem placa, que lá acontece há mais de seis meses. Ah! Não se esqueçam de conferir os gritos dos operários, e a inexistência de equipamentos preventivos para eventuais acidentes de trabalho, inclusive nos feriados e fins de semana.
Anotem as placas dos carros estacionados à entrada das moradias, ajudem a salvar Santa Teresa, um bairro especial que está ameaçado por novas tribos. Estas, dispostas a ganhar dinheiro com a notoriedade que o bairro tem.
Aqui era um lugar bucólico e aprazível! Que continue sendo tratado assim, por todos! Abaixo os novos usos exclusivos, dos sem-noção,  impedindo os direitos dos moradores de Santa Teresa e baixando a qualidade de vida de todos.
Leva tempo para se formar um cidadão.
Cabe aos órgãos públicos participar desse processo. Inclusive, os senhores dirigentes municipais, cumprindo com suas funções e responsabilidades governamentais e públicas.


Santa Teresa, 11 de junho de 2013.

Acreditando em mudanças para melhor. O bairro de Santa Teresa e seus moradores merecem.

Maysa.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

SAMPA EM DOIS TEMPOS:TEMPO II - Maysa Machado












SAMPA EM DOIS TEMPOS


                                                                   Maysa Machado

TEMPO II – Final dos anos sessenta.

Gosto de Sampa. Morei lá por mais de dois anos. Recém terminara o curso de sociologia, na FNFi, entrei no mestrado da USP, na Maria Antônia*. Depois, frequentei o Campus de Pinheiros da Universidade de SP, viagem longa. Gostava das árvores, da largueza do espaço, mas o isolamento... Era maior por aqueles tempos difíceis da ditadura, ameaças implícitas e o não querer relembrar das explícitas.
 A garoa e o friozinho encantavam uma carioquinha de Botafogo. Era julho quando cheguei. O lado provinciano da grande cidade e a “deselegância discreta de suas meninas” surpreendiam.
Fiquei, por pouco tempo, no bairro da Aclimação, em casa de amigos de amigos. Mudei para uma rua próxima ao viaduto de Santo Antônio, ou seria Maria Paula? O que permitia ir à pé para o trabalho, abaixo um andar do Terraço Itália, no Edifício Itália. Então, curtia a visão ampla- 360 º - do por do sol sobre os prédios. Maravilha! Do mesmo quilate que os efeitos especiais nos filmes da época.
 Em outras cidades que não as que nascemos, peregrina-se por casas, quartos. Até num pensionato para moças, em sua maioria vindas do interior do estado, fui parar. Imprecisões aqui e acolá, não sei  se o trecho ficava no Bexiga, Bela Vista ou Paraíso, bairros bucólicos no final dos sessenta. A rua era a 13 de Maio, mas esta muda de bairro, por ser tão comprida, e aos meus olhos era. Depois de casada escolhi um apartamento na Avanhandava, próximo à Rua Augusta, bem perto da Praça Roosevelt. O prédio moderno, com escadas à entrada, plano acima da calçada, mostrava no térreo, lado direito, uma porta colonial de madeira, sempre fechada. Lá era o reduto do Samba, em S.Paulo, instalara-se a boate JOGRAL, do Luiz Carlos Paraná, vinda da Galeria Metrópole, da Av. São Luiz.
Lembro-me da inquietude, beirando quase pânico, no rosto do jovem companheiro quando entrávamos no prédio e dizia-lhe: — Quero conhecer o JOGRAL.
 Nem é preciso afirmar que nunca passei por aquela porta, templo da boemia e da música. Ficou na memória dos desejos não realizados.
 Semana passada estive em SAMPA, e não consegui rever a maioria desses lugares. Meu imaginário adorna, cria espantos e uma terna emoção alinhava o gosto da jovem mulher que um dia viveu por lá.

*Rua Maria Antônia, local da Universidade de S.Paulo, até 1968.


Santa Teresa, 03 de junho de 2013·

Abraços

Maysa