quinta-feira, 11 de junho de 2009

DIA DOS NAMORADOS













Uma corrida de táxi


Manhã do feriado de Corpus Christi. Dou sinal para um táxi.
Acabo de sair da feira livre de quinta, na Glória, com mais sacolas que mãos.
Meus olhos gulosos por beleza e cor, o nariz astuto e cativo do cheiro bom e variado que a feira livre oferece não combinam com o peso, em excesso, que carrego.
Fico grata ao profissional por ter parado e verbalizo o agradecimento. Mulher cheia de sacolas, os taxistas fogem. Nós sabemos, eles também. Quase sempre, é sinal de corrida curta.
Entro, acomodo primeiro todo o rico material, sobretudo, as flores caras, lindas frágeis... Dou-lhe a direção da corrida.
Falo primeiro sobre a carestia, depois sobre as abusivas nomeações secretas feitas no Senado e, recém descobertas. Sobre o neto do Sarney, com apenas 22 anos, herdeiro do direito a um salário muito acima do recebido por profissionais capacitados, na ativa ou aposentados, como eu. E, completo:
-Parece que nem vai lá!
Elogio o trabalho dos jornalistas apurando e divulgando os fatos.
Bom, é só de política e cidadania o nosso papo. Sinto uma secreta alegria em desabafar com quem se preocupa, também, com os destinos do país.
Moro numa travessa de Santa Teresa, invariàvelmente, abominada pelos colegas do taxista... No dia-a-dia não querem ver a beleza, do pouco que sobrou, de calçamento pé-de-moleque, feito por escravos.
Estou quase à porta de casa, ouço uma pergunta que me é dirigida pelo educado motorista.
_ A Senhora mora aqui, sozinha?
Surpresa hesitei na resposta, mas com coragem afirmei.
-Moro.
Com um rosto, subitamente compungido, o motorista insiste.
- Seu marido faleceu?
Aí, me situo.
-Não meu senhor, não foi preciso, me separei.
Ele, rápido:
- A senhora é uma mulher bonita, não quer mais casar não?
Já estava colocando a perna do lado de fora do carro e ainda ouvi,
-Não tem sequer namorado?
Respondi, com calma, simpatia e elegância, pois finalmente, sou uma carioca.
-Não meu senhor, já tive.
- E separou por quê?
Desconcertada, misturei tudo.
-Acho que ele queria filhos... e, não posso tê-los.
Então, beirando o non-sense, ainda, tive que ouvir.
- Era tudo que eu queria: Uma mulher que não pudesse ter filhos.
Olhei-o firme e retruquei com bonomia.
-O senhor encontrará.
Dessa vez, foi ele que se situou.
Agradeceu, educadamente, a conversa e, partiu ao encontro... De uma nova passageira distraída como eu.
Amanhã, pessoal é Dia dos Namorados, só fui lembrar depois que arrumei as flores nas jarras de cristal, de vidro, de cerâmica aqui de casa.
Estão lindas. Estou feliz.
Espero que todos tenham um feliz Dia dos Namorados, com ou sem.
Bjs

Maysa



4 comentários:

Ana P. disse...

Que texto lindo. LINDO. LINDO. Apaixonante ... Me diverti, me emocionei, fiquei com um grande sorriso nos lábios e me deu vontade de mandar para muitos amigos que deveriam ler o seu texto.

Final perfeito, com ou sem namorado.
Beijo!

Maysa disse...

Ana,

Os textos postados têm asas, os da gaveta andam sob domínio.
É preciso um tempo apropriado para exposição, mas se v. tem vontade de enviar este, envie.
Ficarei feliz em saber que riram, se surpreenderam -como eu - e afirmarão como, nós os cariocas, somos!
Ou fomos um dia: relax
bjs Maysa

Dinho disse...

Adorei! Divertida esta história. Pena que o taxista não foi um caso a se pensar né? Pelo menos foi o que pareceu, rsrsrsrsrs.
Saudades de você.
Beijos.

Maysa disse...

Dinho,
você é fogo! esqueceu que tenho namorado fixo? ou melhor dizendo: namorido.
É que sou mesmo distraída, por isso o galante taxista encompridou o papo.
O que já deu panos para as mangas , aqui, em casa.
Escrevo, em breve sobre o day-after.
Beijão. Tb estou com saudade
Maysa