quarta-feira, 1 de abril de 2009

Ou Isto ou Aquilo - Cecília Meireles











Jardim da tia Ysa/ A.Paula/2009



Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.


Ou Isto ou Aquilo, 1964. In, Cecília de Bolso.org de Fabrício Carpinejar, L&PM Pocket. 2008



Cecília Meireles, é para uso interno e externo, sempre.
Ontem, li este poema que tanto me comove e, a tantos, aponta a inquietude humana.

Hoje, li ,ainda, uma entrevista com Bartolomeu Campos de Queiroz, autor mineiro,de belíssimos livros, para público de várias gerações, onde o mesmo poema é citado pelo o autor de: Até passarinho passa.

Releio e sinto-o. Foi escrito em 1964, ano também da morte de Cecília. Naquele ano conturbado, a jovem que eu era , ainda, não o conhecia. Escolhas , também, não podiam ser feitas impunemente. Nunca foi tão presente e imprescidível saber/sentir e ficar tranquilo: ou isto ou aquilo.

Hoje, 45 anos depois do Golpe de Estado, que vitimou muitos brasileiros e algumas gerações , a minha sobretudo, reflito sobre o tanto que se perdeu em sonho, alegria e coragem para transformar o país.
Para a Poesia, felizmente, sempre é tempo de descobrir e fazer.

Na violência e autoritarismo, o golpe foi contra a Nação e seu povo. O Estado Brasileiro , até hoje, reflete na falta de seriedade dos homens públicos, o compromisso rompido com os desejos mais legítimos de vida digna e igual para todos .

A Educação está entregue aos oportunistas, despreparados e descompromissados, os exemplos são muitos, salvo raríssimas excessões.Quem perde é o povo que, sem escolas gratuitas, democráticas, com professores capazes e valorizados, não pode aprender a escolher: Ou isto ou aquilo.

Onde fica a lucidez dos governantes? Ouçam essas vozes, como a densa poesia de Cecília, educadora desde os 16 anos.
A utopia de Darcy Ribeiro, que não pensava o Brasil dividido em quotas e sim amalgamado em suas singularidades.
Elas, continuam se multiplicando continuam ouvidas... dúvida , demasiado humana,que aponta nossa precária condição. Então, talvez acredite que tudo não foi em vão...


Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.


Um bom mes de Abril para todos.

Bjos


Maysa

2 comentários:

Ana P. disse...

Maysinha,
Que texto bonito. Bonito mesmo.
Sem palavras.
Beijo!

Maysa disse...

Ana,


Deixei,no Catando Poesias, um poema do Ho Chi Minh, repito-o aqui:

A Ração de Água

Cada um de nós tem como ração meio jarro de água
Para o banho ou para ferver o chá, conforme o gosto:
Se você quer lavar o rosto, não terá como preparar o chá:
se quer tomar seu chá, não poderá lavar seu rosto.

Então, querida, como Cecília e Ho, ensinam é preciso saber o que se quer. A regra não é só interior, por vezes, na maioria das vezes, vem da pressão externa ou da ...prisão.
Bem , isso só o Ho Chi Minh poderia nos contar...
Grata pelo comentário acima.
Bjs Maysa